Condições sadias, alicerces pessoais e educação da primeira infância

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Anos atrás, em uma palestra sobre a educação dos primeiros anos da criança e a sua importância nas crises da vida, um pai levantou-se aflito. “Meu filho não é mais criança”, dizia ele. “É um adolescente que eu não reconheço, envolvido em drogas, que se afastou e a minha mão não consegue mais alcançar. De que me adianta” dizia, transtornado “saber agora de tudo o que devia ter feito e não fiz? Quem vai me ajudar a recuperar tudo o que já perdi?” Seu incômodo era tanto que saiu da sala de supetão, e eu não pude nunca oferecer-lhe algumas palavras. Se pudesse, talvez fossem estas.

Longe de apontar dedos e levantar acusações, é preciso deter-se sobre o impacto que a educação dos ritmos na primeira infância tem nas fases seguintes da vida, e nos desafios que virão com elas. Como num edifício, a fundação e os alicerces ficarão um dia invisíveis aos olhos dos passantes, mas no processo de construção são eles que garantem a segurança, a estrutura, o equilíbrio, a resistência do prédio. Necessitam ser pensados e projetados com atenção, precisam de materiais de primeira qualidade. Precisam do tempo correto, do peso correto, da massa correta. Os nossos alicerces chamam-se ritmos.

Depois que o prédio está construído, saber das suas fundações, da maneira como foram estabelecidas e feitas ajudará, e muito, quando aparecerem rachaduras nas paredes, ou infiltrações na base de alguma coluna. Talvez seja preciso um estaqueamento de alicerce.

O edifício, sabendo das suas fragilidades, poderá cuidar-se (ou ser cuidado) da melhor maneira.

Imagino que esse pai aflito visse passar, ao longo da palestra, o filme da infância de seu filho. Conforme se falava de ritmo, é provável que ele visse o descuido com os ritmos de seu filho. Se eu pudesse encontrá-lo, haveria de dizer-lhe que o descuido é nosso parceiro na vida, e oferece-nos os meios de aprender a cuidar de nós mesmos e dos outros. A nossa capacidade de transformação, acredito eu, é mais poderosa que qualquer situação estabelecida.

Os ritmos que regulam a nossa vida nascem conosco. O ritmo respiratório nasce quando os brônquios e os pulmões, até então virgens dentro de nós, se enchem de ar no momento do nascimento. É um instante mágico, muito provavelmente doloroso; simbolicamente, podemos pensar que é aí que nos tornamos seres do planeta terra: respiramos. Isso não quer dizer, no entanto, que saibamos respirar. Nascemos com o instinto básico, como todos os animais, mas não sabemos como respirar. E somos extremamente permeáveis e suscetíveis a tudo o que nos rodeia, porque também ainda não sabemos como aceitar ou recusar o que nos chega do meio ambiente. Somos uma tela sem filtros.

Uma atmosfera calma e tranquila nos fará respirar de uma determinada forma. Ruído, gritos, agitação nos atingirão de outra maneira, e a nossa respiração será acelerada, inquieta, espasmódica, talvez. Nesse período básico e inicial de formação, o bom é que ofereçamos aquilo que propicie uma respiração pausada, tranquila, sem sobressaltos. É preciso um espaço de descoberta tranquilo, seguro, onde a criança possa apropriar-se desse seu ritmo e começar a aprender a regulá-lo.

Quando esse momento do nascimento já passou, um trabalho de atenção presente ao ritmo respiratório, reorganizando-o e tornando-o consciente pode ajudar a que nos religuemos a esse momento inicial. Exercícios de meditação e relaxamento apoiam-se frequentemente no ritmo respiratório. Saber que esse movimento nos reconecta com a nossa primeira essência, nosso primeiro contato com o mundo em que vivemos, pode ser uma experiência muito rica.

Além disso, o ritmo respiratório está diretamente ligado ao ritmo cardíaco, e tem o incrível poder de acalmar ou acelerar esse que é o nosso mais involuntário músculo – o coração.

Através de uma respiração educada, as emoções também podem ser educadas. A raiva, o medo, a paixão, o desejo, a depressão, a ansiedade podem alterar significativamente o nosso ritmo cardíaco. Através de uma respiração que teve o tempo e o ambiente corretos para implantar-se dentro do organismo, podemos ter um corpo de emoções e de sentimentos que poderemos domar dentro de nós. E que não nos passarão a perna, descontrolados, carregando-nos por caminhos que não queremos ir.

 

 

ana cptAna Vieira Pereira é mestre e doutora em Literatura Comparada pela USP. Atualmente dedica-se ao ensino e à pesquisa da escrita dentro do âmbito da criação artística. Coordena o espaço Quinta Palavra, em Botucatu, e é assessora pedagógica da Escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo, e da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, em Botucatu. É autora de, entre outros, Do ventre ao berço: o parto em casa, Mistache Malabona e O dono do castelo.

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