A química cerebral da dopamina e sua interação com drogas

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Um dos neurotransmissores mais versáteis em nossos cérebros, a dopamina é responsável pelo controle de diversos sistemas em nossa mente, entre eles seus mecanismos de recompensa, o que lhe valeu o apelido de “hormônio do prazer”. Assim, muitas drogas, lícitas ou ilícitas, agem de uma forma ou de outra aumentando a concentração de dopamina neste circuito neural específico, conhecido como via mesolímbica. Mas a maneira que substâncias como cocaína e anfetaminas fazem isso ainda é um mistério para os cientistas, que começa a ser revelado graças ao esforço de mais de 20 anos de estudos sobre a química cerebral da dopamina e sua interação com drogas por pesquisadores do Instituto Vollum, da Universidade de Ciências e Saúde do Oregon, nos EUA. A descoberta, publicada na revista “Nature”, abre caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos dos vícios.

Segundo os pesquisadores, a cocaína e seus derivados e as anfetaminas perturbam o funcionamento dos chamados transportadores de dopamina no cérebro. Estas moléculas atuam como “bombas” que removem a dopamina das sinapses, as regiões em que um neurônio se comunica com outro. Ao impedir que os transportadores “limpem” a dopamina destas áreas, tanto concorrendo quanto desativando-os em nível molecular, as drogas fazem com que o sistema de recompensa fique “ligado” por mais tempo, proporcionando uma prolongada, e viciante, sensação de prazer.

— Este estudo preenche uma grande lacuna no nosso conhecimento que persistiu durante décadas: como exatamente estas drogas altamente viciantes afetam o funcionamento normal do cérebro — comenta Richard Goodman, diretor do Instituto Vollum. — Esta pesquisa dá à indústria farmacêutica informações específicas de alvos para tratamentos, abrindo a porta para novas abordagens terapêuticas para bloquear os efeitos da cocaína e da anfetamina.

Para a psiquiatra Analice Gigliotti, vice-coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria, a descoberta pode de fato ajudar no tratamento do vício em cocaína ou anfetaminas.

— Quanto mais a gente sabe sobre a forma de ação de uma substância, qualquer que seja, no cérebro, melhor podemos agir para impedir que isso aconteça — diz Analice. — Já sabíamos que a cocaína e as anfetaminas são drogas altamente dopaminérgicas, tanto que seus dependentes mais graves têm um sofrimento maior em função da forma como elas pervertem este sistema, o que gera o que chamamos de síndrome de deficiência de recompensa, que faz com que não consigam sentir prazer mesmo nas coisas mais básicas da vida. Assim, com esta descoberta, poderíamos encontrar formas de diminuir a “onda” provocada pelas drogas ou os danos que elas causam neste sistema, reduzindo a “fissura” provocada por elas.

Opinião parecida tem Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra e presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool:

— Há anos muitos pesquisadores procuram uma vacina contra o uso de drogas e para isso temos que saber onde e como elas agem para neutralizá-las, ocupando seu espaço de ação sem provocar efeitos psicoativos, e este estudo pode dar a base para produzir esta vacina no futuro.

 

Fonte: O Globo