Lança-perfume: praga da juventude, de acesso fácil e barato

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Já mostramos neste artigo que a heroína, droga muito popular nas décadas de 1960 e 1970, está de volta. Segundo o dito popular, “a má notícia nunca vem sozinha”. De fato, o lança-perfume, droga que já foi moda nos carnavais do século passado, é atualmente uma das mais usadas pela periferia de São Paulo, sendo vista tanto nas mãos de crianças de aparentemente 12 anos até adultos, que balançam pequenas garrafas de plástico e a levam à boca para aspirar o conteúdo.

A receita original do lança-perfume é composta de clorofórmio, éter, e uma essência perfumada. No entanto, um jovem que não quis se identificar e que já vendeu o produto em bailes, disse que, atualmente, para a produção da droga, um dos produtos usados é o anti-respingo de solda sem silicone – que protege o metal da corrosão – ou o Thinner – um solvente de tintas.

A essência perfumada também é adicionada, e o produto é vendido em vidros de 5 mililitros por R$ 5. O conteúdo do vidro é colocado em garrafas de plástico ou latas vazias de cerveja ou refrigerante. O usuário balança o líquido, que evapora aos poucos, e o aspira pela boca.

Para tentar combater esse problema, a Associação Rolezinho A Voz do Brasil – criada após a polêmica dos encontros-, a Liga do Funk e a Produtora 3R lançaram a campanha “Diga Não ao Lança”. Além de compartilhar a mensagem em redes sociais, os integrantes tentam conscientizar a juventude durantes os eventos. Ricardo Sucesso conta que passou a ver muitos jovens baforando e com isso passou a questioná-los em seus shows: “Quem já perdeu amigo para o lança?” Alguns levantavam a mão. Ele então puxava o coro: “Lança”, e o público respondia “mata, mata, mata, mata”, em ritmo de funk.

O uso da droga não é exclusivo do gênero musical. Segundo Ricardo, que também apresenta outros tipos de evento, o lança-perfume está “em todos os tipos de baile, funk, forró, samba, bailes em geral”.

Integrante da Liga do Funk e apresentador de bailes funks de rua, conhecido como “fluxos”, Duda Mel, de 28 anos, fala sobre o aumento do uso da substância. Segundo ele, “o lança virou febre nos fluxos de um ano para cá”.

“É uma praga da juventude, é fácil e barato o acesso”, disse Mel. O apresentador já presenciou jovens que tiveram problemas com o uso da droga. “Uma menina de 15 anos baforou, começou a se debater, caiu e teve um ataque epilético. Fiquei abanando e dando água”.

Cláudio Santos Celestino, de 21 anos, o MC Xocolate (sic), da comunidade do Gato, região central de São Paulo, perdeu um amigo para a droga há três meses. “A gente estava num baile funk, ele baforando, a língua dele virou, ele não conseguiu respirar e foi ‘fatality’.” Em suas músicas, o MC disse que não faz apologia ao lança-perfume. “Eu expresso minha realidade e meu sonho, você nunca vai me ver falando de droga”.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que, de janeiro a novembro, o Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) apreendeu mais de 800 frascos dessas substâncias solventes ou inalantes.

O lança-perfume tem um efeito rápido, que dura de 10 a 15 minutos, o que faz com que as pessoas usem quantidades grandes para repor a substância. O efeito inicial é muito parecido com o do álcool, causa euforia e a pessoa fica mais agitada. A droga também provoca aceleramento cardíaco.

Alguns minutos depois, se a quantidade consumida for muito grande, pode haver uma depressão do sistema nervoso central e o relaxamento de funções vitais importantes, com risco de levar ao coma e até a morte, explica a psicóloga do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Cláudia Cristina de Oliveira Camargo. Usado junto com álcool, os efeitos e riscos são potencializados.

A longo prazo, o uso provoca perdas cognitivas importantes, com comprometimento de memória e de funções do cérebro importantes para tomadas de decisão, como o raciocínio lógico e abstrato.

Segundo a psicóloga, é a quarta droga mais consumida no Brasil, atrás do álcool, tabaco e maconha. A profissional disse que como não é detectada a dependência do inalante, as pessoas não vão aos serviços de tratamento, o que torna ainda mais perigosa a exposição. Pouco se fala disso e no serviço de atendimento especializado não se trata dessa demanda.

“Tanto para as famílias quanto para os profissionais de saúde é importante mais atenção para o uso dessa substância. É um quadro de drogas subidentificado, mas que está levando às pessoas a morte”, disse Cláudia.

Algumas músicas que tocam nos bailes falam sobre o uso da substância, como “É o lança de côco, baforo ficou louco”, do MC Bin Laden. A letra ainda diz “Quem não bafora aqui, aqui não transa”, e “olha o tuim”. “Tuim” é o som descrito por usuários que faz na cabeça durante o consumo do lança-perfume.

O MC também lançou uma segunda versão, chamada “Lança de côco 2”. Nesta, a letra fala “Qual foi, qual é, o lança de côco faz você gelar o pé”. Um dos efeitos da substância é a sensação de estar com o pé gelado.

Apesar das letras, o MC Bin Laden disse ao G1 que não usa a substância e que apenas retrata a realidade que vê. “Por frequentar alguns fluxos de rua, passei a observar mais as pessoas e o modo como ficavam então resolvi me expressar citando-as”, disse.

O músico ainda contou que já perdeu um amigo muito próximo para a droga e que lamenta muito por ele não estar aqui hoje e ver que ele se tornou um MC.

Questionado se ele considera que estimula o uso com suas músicas, Bin Laden diz não saber. “Não sei, só sei que bem antes de eu cantar sobre, já estava acontecendo”.

Mas a presença da droga em músicas também é uma espécie de “retorno”. Em 1980, a roqueira Rita Lee lançou a canção “Lança perfume”, que fez grande sucesso à época. É possível ouvir, no refrão, um som característico do spray do produto sendo disparado e, em seguida, o som de uma aspiração forte, como quem está inalando a droga. Na ocasião, Rita disse que não se refere à droga, mas à brincadeira de antigos carnavais.

Falta de senso, portanto, não é novidade neste caso.

 

Fonte: G1

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