A bela e o crack

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Loemy Marques tem 24 anos (vai completar 25 nesta quinta, 27). É loira, magra, com 1,79 metro de altura e olhos verdes. Ela veio do interior de Mato Grosso para a capital paulista atrás do desejo de seguir carreira de modelo. Mas Loemy virou estrela por outro motivo, e nada a ver com o charme da moda: ela virou capa da revista Veja São Paulo por viver na Cracolândia, em São Paulo, onde se submeteu a tudo para manter o vício: inclusive vender o corpo.

Alguns de seus traços de beleza ainda resistem, apesar das cicatrizes no corpo. Tem os joelhos feridos e os pés rachados pelo tempo dormido na rua. Os dedos estão queimados, de tanto acender os cachimbos de crack. A jovem vive no lugar há mais de dois anos, mas poucos sabem quem é. Arredia e desconfiada, sempre rejeitou o contato de pessoas que não fossem os próprios viciados. Só mais recentemente deixou que assistentes sociais e voluntários de ONGs que atuam no local se aproximassem para lhe oferecer banho e comida.

Na semana passada, aceitou se encontrar com a reportagem de VEJA SÃO PAULO para contar sua história de Cinderela às avessas. Foram três sessões de conversas, nas quais se emocionou várias vezes lembrando detalhes de como o sonho de brilhar nas passarelas acabou na Cracolândia.

Lúcida e articulada quando não está sob o efeito das drogas, Loemy demonstra ter consciência do seu estágio atual de degradação física e moral provocado pelo vício. Perambula no centro desde setembro de 2012. “Quando me mudei para São Paulo e descobri que existia um lugar como a Cracolândia, fiquei horrorizada com aquelas pessoas na rua”, lembra. “Hoje, eu é que estou nessa situação.” Consome atualmente cinco pedras de crack por dia, em média. Cada uma custa 10 reais. Muitas vezes, ela se prostitui para conseguir o dinheiro. “Mas não faço nada sem preservativo, vim parar aqui com a consciência formada, pelo menos”, afirma. “Vejo muita menininha doente ou com filho.” Uma época, recebia a droga de graça dos traficantes. Além da beleza, o jeito educado e cativante ajudava.

Antes de começar a fazer programas, tentou outros meios para sustentar o vício. Como se sente humilhada pedindo esmola, certa vez empurrou uma senhora para lhe roubar a bolsa. Mas entrou em prantos ao vê-la cair no chão e jurou nunca mais fazer isso. Nascida em um município com pouco mais de 50 000 habitantes, é a filha mais nova de uma empregada doméstica e de um garimpeiro. A mãe, Elizabeth, Loemy e a irmã, que tem dois anos mais que a caçula, continuam morando por lá. O pai sumiu de casa quando ela era um bebê de 6 meses. Na adolescência, já chamava atenção pela beleza. Fez pequenos trabalhos em Mato Grosso, como desfiles e divulgação de novas coleções de lojas locais. Até que um olheiro e produtor de moda, de passagem pela cidade, descobriu a moça e a incentivou a tentar a vida em São Paulo.

Entusiasmada, a garota fez as malas. Desembarcou em janeiro de 2012 com 3 000 reais dados pela mãe e foi dividir um apartamento no Itaim com outras modelos. Mesmo assim, o custo de 500 reais por mês ficou pesado para ela. Em agosto do mesmo ano começou a morar de favor no Bom Retiro, em um apartamento de um amigo. Nessa época, fez o primeiro book profissional.

Encaminhada às principais agências de manequins da capital, não vingou em nenhuma. Segundo a preparadora de modelos Débora Souza, da Skin Model, em poucos meses em São Paulo, a jovem começou a beber e fumar com frequência e perdia os compromissos. Loemy atribui parte desses problemas à frustração de não ver as coisas andando no ritmo com que sonhava. “Desafogava frequentando muitas festas”, diz. Em sua cidade, ela já havia experimentado maconha. Na capital, foi apresentada à cocaína pelos promoters das baladas.

Loemy tem na memória o dia e o horário exatos em que fumou a primeira pedra de crack: 15 de setembro, às 4 da manhã. “Estava em um táxi e, em vez de ir direto para casa, desviei o caminho e desci perto da Praça Júlio Prestes para tentar comprar maconha”, lembra. Na bolsa, carregava 800 reais e dois celulares. Acabou sendo assaltada por dois bandidos. Ficou sem os pertences e caiu chorando no chão. “Até que colocaram um cachimbo na minha boca. Foi como uma tomada para carregar”, conta.

A partir desse momento, a substância se tornou parte de sua vida. “Eu a uso com a filosofia de ficar tranquila, de ver a vida passar sem me incomodar com a realidade”, justifica. Quando ela começa a sofrer as crises de abstinência, seu humor muda e acusa os efeitos físicos da falta da pedra de cocaína. Ela passa a se contorcer e esfrega as mãos contra o corpo repetidamente. Isso só termina quando fuma outra vez e sente o barato do “tuim” (em poucos segundos depois de inalada, a droga libera no cérebro descargas de dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer).

O vazio de não deslanchar a carreira em São Paulo e a dificuldade de adaptação à cidade grande não foram seus únicos problemas. Loemy carrega um trauma de infância: dos 4 aos 10 anos foi abusada sexualmente pelo padrasto. Dormia no mesmo quarto da irmã, que também era atacada pelo homem. Certo dia, não aguentando mais a situação, a irmã contou tudo à mãe. Na época, Elizabeth, hoje com 48 anos, ficava a maior parte do tempo fora, cuidando de duas casas para sustentar a família. Depois do episódio, Elizabeth expulsou dali o companheiro, mas não procurou as autoridades para denunciá-lo. “Até hoje, tenho muita mágoa”, afirma Loemy. “Eu era uma criança, e não se fez justiça.”

Às vezes, ela desaparece da Cracolândia. “Tenho medo e fico fugindo de um lado para outro. Já tentaram me furar com faca, mas tenho fé em que Deus não vai permitir nada de grave na minha vida.” Escolher um canto para passar a noite é sempre um momento tenso. “Uma vez me estupraram dormindo.Tentar se esconder é pior, você vira um banquete para eles. É melhor estar no aberto, na visão de quem pode te proteger.” Acostumada a andar sempre maquiada e arrumada, ela deixou a vaidade de lado. “Não me olho no espelho, senão eu choro, me deprimo mais.”

Várias pessoas tentaram tirá-la de lá. Um conhecido dos tempos das agências a visita quinzenalmente, oferecendo comida e banho. Certa vez, ele alugou um quarto em um hotel para que Loemy ficasse no lugar para se recuperar, mas a jovem voltou a dormir na rua. Em outra ocasião, o mesmo amigo pagou uma passagem para que a ex-modelo voltasse a Mato Grosso. A garota ficou lá poucos meses. Envolveu-se com traficantes do local, que a juraram de morte, pegou uma carona escondido da mãe e voltou às ruas de São Paulo. Em junho do ano passado, Elizabeth esteve na metrópole tentando resgatar a filha. “Loemy queria que eu ficasse, mas não tenho condições financeiras. Toda a minha vida, o meu sustento, está em Mato Grosso”, diz. “Já tentei interná-la, mas não deu certo. Toda noite fico de joelhos e oro por duas horas, pensando quantas noites ela não dorme com fome. A única solução é conseguir um tratamento em São Paulo”, entende Elizabeth, que é fiel da igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil.

No ano passado, por duas vezes, Loemy chegou a passar pelo Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), no Bom Retiro. Não aceitou ser internada e acabou direcionada para uma unidade de atendimento psicossocial. Ali, também não quis aderir ao tratamento. Histórias como essa mostram quanto a rede de emergência se apresenta modesta demais para dar conta da complexidade do problema.

A prefeitura de São Paulo lançou em janeiro deste ano o programa De Braços Abertos. Inspirado nas políticas de redução de danos, ele acertou com os viciados o desmonte dos barracos da favela da droga, formada entre a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvetia. Em seguida, todos foram encaminhados para hotéis da região e receberam benefícios como alimentação, tratamento médico e 15 reais por dia, em troca da prestação de serviços de varrição de ruas e praças.

O município gasta mensalmente 815 000 reais com a iniciativa. Atuam também no local cerca de oitenta agentes do programa Recomeço, do governo estadual. Criado em janeiro de 2013, o serviço já conduziu cerca de 18 000 pessoas ao Cratod. Em um primeiro momento, conseguiu-se evitar que os viciados erguessem novos barracos ou que se amontoassem no meio das ruas para consumir a droga. Também foi reduzida a violência na região. Dados do Sistema de Informações Criminais (Infocrim) mostram que os índices de furtos gerais e furto de veículos diminuíram, respectivamente, 32,3% e 47,4% na comparação entre osprimeiros seis meses de cada ano. Os números, entretanto, não se sustentaram. Em setembro, os viciados voltaram a erguer uma favela do crack, dessa vez na Alameda Cleveland, também na capital paulista.

 

Fonte: Veja São Paulo

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