Orfandade e drogas – além do abandono, culpa

Tempo de leitura: 3 minutos

A vida começa com a marca do abandono. E, para muitos, ela continua dessa forma, sentindo a mão pesada da negação de direitos e da vulnerabilidade. Muitas capitais brasileiras assistem a uma geração, formada por crianças de várias idades, abandonadas em decorrência do uso de drogas pelos pais. A drogadição escancara os problemas e doenças da sociedade.

Quando bebês são abandonados nas maternidades, os órgãos de assistência precisam agir para garantir o mínimo diante do descaminho do início: um acolhimento.

Mas, mesmo para acolher, muitas cidades se mostram despreparadas, pois as entidades de acolhimento atuam no limite de suas capacidades. A demanda por vaga cresce junto com o cenário tomado pelas drogas.

Cidades diferentes, mas histórias parecidas quando o assunto é abandono de crianças. O perfil é o de mães usuárias de drogas, que dizem não querer ou não poder ficar com as crianças, pela situação em que se encontram. O tempo longe da droga urge e tudo fica para trás. Assim, os órgãos de assistência entram no processo para atender à criança.

Os conselheiros, assistentes sociais e demais pessoas que atuam na rede de assistência reúnem na experiência cotidiana relatos como o da mãe que deixou o filho como garantia para usar drogas. Avós que já cuidam de diversos netos e não têm mais como arcar com a prole de um filho ou filha envolvida com a droga. Gestações que seguem pela força inexplicável da natureza e crianças que nascem apesar das violências sofridas no momento que deveria ser proteção para o desenvolvimento.

Essas crianças, filhas do que resta de uma pessoa entregue ao consumo da droga, são paridas para um mundo de incerteza. A maioria já chega com problemas decorrentes da saúde frágil da mãe e da gestação descuidada.

Entre esses bebês, a sífilis é uma realidade comum, apontam os hospitais. Muitas também são contaminadas pelo HIV. Com o tempo, os efeitos do contato do organismo com a droga tão prematuramente se mostra com outras doenças e, em muitos, o desenvolvimento é afetado. Além disso, o abuso sexual de crianças que têm pais viciados é comum.

A exposição ao risco acaba cobrando seu preço. A juíza Gladys Henriques Pinheiro, da 1ª Vara da Infância e Juventude da Serra, em Vitória (ES), conta que muitos dos adolescentes que estão respondendo a processo na Justiça têm famílias envolvidas no tráfico de drogas ou são órfãos.

Muitos dos pais desses adolescentes infratores são dependentes químicos. Os casos que precisam de um acompanhamento contínuo, como o de usuários de drogas, possuem mais chances de dar errado quando o sistema, em algum momento, não alcança seus objetivos.E, de acordo com a juíza, são poucos os casos de pais que superaram isso e que querem reaver os filhos.

O pior é que essas crianças sentem, além do abandono, culpa por não terem conseguido cuidar de quem deveria cuidar deles – os pais.

 

Fontes: Gazeta Online & Jornal de Hoje, adaptado do texto de Samaísa dos Anjos