A paradoxal relação entre religião e drogas

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Em julho deste ano, um programa do “Globo Repórter” da TV Globo teve uma enorme repercussão por mostrar pela primeira vez o consumo de maconha em TV aberta sem nenhum tipo de censura.

A reportagem mostrou Glória Maria expondo as curiosidades sobre a Jamaica. Ao visitar uma tribo rastafari, a repórter resolveu participar de um ritual religioso que consiste em fazer uma oração e fumar um cachimbo de maconha. Isso porque, na Jamaica, a legislação permite fumar maconha para fins religiosos. A “ganja” (nome dado à erva) “ajuda a limpar a mente e estimula a meditação”, segundo uma das entrevistadas do programa.

“Não sei fazer essa oração, mas querem que eu tente. Recusar, nem pensar. Seria um desrespeito à tradição”, conta Glória na reportagem. Ela, então, traga a maconha, e todas as cenas são registradas pelos cinegrafistas. “Num primeiro momento, fiquei completamente tonta. Para quem não está acostumado, é preciso tempo para entender”, relata a repórter.

Se para os jamaicanos a ‘ganja’ seria um ‘bilhete de viagem para encontrar Deus’, para alguns nativos americanos este ‘bilhete’ se chama peiote.

Feito a partir de um tipo de cacto, a substância é um alucinógeno da família da mescalina cujos efeitos muitos usuários comparam aos do LSD. A substância é proibida em diversos países, inclusive o Brasil, mas pode ser usada por membros de igrejas em alguns estados americanos.

Curiosamente, logo depois de Glória Maria, foi a vez do ator e apresentador da BBC Mawaan Rizwan se vincular à igreja Oklevueha, em Salt Lake City, nos Estados Unidos, para poder provar a substância. Rizwan participou de uma cerimônia religiosa em que o peiote é usado como meio para colocar o corpo humano em contato com o mundo dos espíritos.

O curandeiro James “Águia Flamejante” Mooney, que conduz o ritual, disse que o rito permite que as pessoas penetrem nas camadas de auto-proteção que erguem em torno de si. Outors adeptos da prática dizem que o peiote os ajuda a perdoar a si mesmos de erros cometidos.

Já mostramos neste artigo que  a expansão da Ayahuasca, bebida sacramental produzida a partir da decocção de duas plantas, se deu com o crescimento de movimentos religiosos organizados, sendo os mais significativos o Santo Daime, a União do Vegetal, além de dissidências destas e grupos (núcleos ou igrejas) independentes que a consagram em seus rituais.

Em comum, a ‘ganja’ jamaicana, o peiote estadunidense e a ayahuasca sul-americana tem em comum o fato de serem liberadas desde que utilizada durante cultos religiosos.

O motivo: a liberdade religiosa de cada um. Graças à liberdade religiosa, podemos escolher e exercer as crenças que quisermos. Não precisamos esconder crucifixos, estrelas-de-davi, um exemplar do Alcorão. Para proteger essa liberdade, às vezes é necessário criar exceções ao que se considera ético, moral ou mesmo legal na sociedade, como a feita à ayahuasca. O problema é que algumas exceções acabam prejudicando o bem coletivo. É nessa hora que a fé de cada um deve encontrar um limite.

Cabe ressaltar que a abstinência do consumo de drogas, enquanto tática para recuperação de dependentes químicos, é um elemento comum ao conjunto das religiões cristãs. Até mesmo as religiões sincréticas como o Santo Daime e a União do Vegetal, por exemplo, que utilizam drogas psicotrópicas em suas cerimônias, combatem os mais variados males orgânicos e emocionais, entre os quais está a própria dependência química.

Parece paradoxal, mas segundo uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) feita em 2010, praticar uma religião, manter diálogo com a família e ter acesso a informações são atividades que podem afastar os jovens das drogas.

O objetivo do estudo era analisar quais ações podem prevenir o uso de drogas entre adolescentes de baixo poder aquisitivo. Para isso, 62 jovens, usuários ou não, foram submetidos a uma entrevista para listar as estratégias que eles consideram mais eficientes.

A religião foi a mais citada. Ao todo, 81% dos não-usuários praticavam alguma religião, contra 13% dos usuários. Manter laços familiares sólidos, mesmo que só com a mãe, e ter acesso a informações sobre os riscos da dependência foram fatores citados em seguida.

Nota-se então que, mesmo por diferentes caminhos, todas as religiões atuam no sentido de fortalecer a recuperação daqueles que optam pelo tratamento contra a toxicomania nestas instituições. E, considerando que a religião exerce um papel fundamental no tratamento contra a toxicomania, as motivações dos indivíduos que procuram pelos cuidados oferecidos em tais instituições parecem estar associadas à expectativa de encontrar todos aqueles elementos que compõem a recuperação inerente ao suporte oferecido no âmbito do tratamento religioso contra as drogas.

 

Fontes: CT Viva & G1